UMA AGÊNCIA PARA O CINEMA PORTUGUÊS

O aumento da procura e interesse pelo cinema português em festivais internacionais levou o IndieLisboa a criar uma agência de internacionalização do sector, a Portugal Film.

O ano de 2014 foi o segundo melhor da década no que respeita ao número de espectadores que viram cinema português. Segundo os dados revelados na quarta-feira, dia 21 de janeiro, pelo Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), cerca de 571 mil assistiram a produções nacionais (4,7% num total de 12 milhões contabilizados). “Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, “Virados do Avesso” e “Os Gatos não Têm Vertigens” foram as produções nacionais mais vistas. Mas esta não é apenas uma tendência de consumo doméstico. A procura de cinema português em festivais internacionais levou a associação cultural IndieLisboa a criar uma agência de internacionalização do sector, a Portugal Film, apresentada ontem em Lisboa, depois de alguns anos passados a apurar a ideia.

“O projecto já existia, penso que desde 2009, e foi sendo pensado à medida que a necessidade ia surgindo, porque na verdade era um trabalho que o festival IndieLisboa vinha a fazer e que já definia esta necessidade de haver uma espécie de sistematização e de internacionalização do cinema português”, explica Margarida Moz, uma das responsáveis pela agência. O reconhecimento e os prémios conquistados no estrangeiro por realizadores portugueses foram aumentando a curiosidade em relação ao cinema nacional e as exibições, nos visionamentos promovidos pela associação, de material inédito e em diferente fase de realização ou os contactos com outros programadores foram abrindo portas.

Faltava, contudo, dar continuidade ao caminho iniciado. “Nós percebemos que não era suficiente indicar um filme para um ou outro festival, tinha de haver um acompanhamento diferente. Os realizadores muitas vezes não têm uma estrutura para acompanhar o filme, para o que vai acontecer a seguir. É um trabalho que tem de ser continuado.” O primeiro passo é a selecção dos sítios onde se pretende mostrar as produções. “A ideia é pegar no filme desde o início e tentar definir uma estratégia em função do próprio filme, e não o mandar para uma série de festivais sem nenhum plano.” Até porque estes, para o circuito independente, surgem quase sempre como a primeira montra. “São momentos em que estão programadores, muitos têm mercado e toda a indústria está lá, estão distribuidores que podem querer comprar os direitos dos filmes.”

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A ESTRATÉGIA

Toda a gestão tem de ser pensada e ponderada, por isso o projecto aposta num catálogo pequeno que permita acompanhar mais de perto os filmes agenciados. Para já, a Portugal Film tem títulos em fase de conclusão e outros terminadas, entre os quais quatro curtas e uma longa-metragem. “A primeira que agenciámos foi a curta ‘A Caça Revoluções’, da Margarida Rêgo, que já fez um belo percurso em festivais. Entre as outras curtas temos uma que estreou no Doc, outra que não estreou, e a nossa primeira longa, que é “A Toca do Lobo”, da Catarina Mourão, com estreia em Roterdão, no Festival Internacional de Cinema que começou esta semana.”

O interesse em torno do cinema português também eleva a fasquia. Se por um lado traz mais visibilidade e espaço para aparecerem mais produções, por outro sobe o nível de exigência e de esforço. Algo que a agência quer ver reflectido no seu catálogo a par da diversidade de géneros. “Começa a construir–se uma ideia do que será o cinema português, uma coisa de autor, independente. Mas há um misto de querer ver coisas que se identifiquem como cinema português, mas ao mesmo tempo querer ser-se surpreendido por ele. Vamos tentar ter um catálogo que dê conta disso, porque os filmes não são todos iguais. Essa riqueza tem de ser mostrada também.”

Para criar esta agência, o IndieLisboa Associação Cultural candidatou-se a uma linha de financiamento do ICA para a internacionalização do cinema português. À Portugal Film foram entregues 45 mil euros, para sistematizar e autonomizar o trabalho que a associação já desenvolvia. A direcção da agência e da associação são comuns, embora Margarida Moz passe a estar mais centrada na primeira. “A programação é feita por nós e não pelos programadores do Indie, o que quer dizer que os filmes que estão na agência não têm necessariamente de passar pelo festival. A agência vai funcionar a tempo inteiro, trabalhar o ano todo com esse fim e de uma forma independente.” Nos próximos meses, a Portugal Film estará presente nos festivais de Berlim e de Clermont-Ferrand.

Fonte: Jornal i