PORTUGAL TEM CADA VEZ MAIS JOVENS EMPREENDEDORES

Quando a crise de 2011 atingiu Portugal, muitos portugueses perceberam que teriam de montar o seu próprio negócio como forma de obter rendimento.

Na altura, Miguel trabalhava como agente imobiliário, mas com este mercado em queda livre, estava a ganhar pouco mais que nada.

Com o governo Português a aplicar uma série de medidas de austeridade, em troca de 78 mil milhões de euros a economia portuguesa encontrou-se na pior recessão dos últimos 40 anos.

O mercado de trabalho veio a sofrer uma forte retração e, com quatro filhos a seu cargo, Magda e Miguel Tilli decidiram que tinham de arriscar e começar o seu próprio negócio. Magda, de 37 anos, relembra como tudo começou: “Estávamos na praia, a pensar no que poderíamos fazer”. E decidiram então utilizar o conhecimento que o seu marido tinha sobre o mercado mobiliário. Assim, perceberam que poderiam tornar um problema (já ninguém comprava casa) numa oportunidade de negócio. Decidiram lançar um negócio imobiliário especializado em alugar casas no centro da cidade de Lisboa. Enquanto noutros países era comum a existência de negócios deste tipo, a grande maioria dos agentes imobiliários portugueses só lidava com a compra e venda de casas. Ter casa própria em Portugal sempre foi uma questão de orgulho. Essa era a opção de muitas pessoas, até de jovens adultos. No entanto, de repente, a maioria dos jovens adultos não conseguiam crédito para habitação. Como alternativa, um número crescente destes jovens viraram-se para o mercado de arrendamento, o novo negócio dos Tillis. Assim nasceu a Home Lovers.

Tendo em conta os modestos fundos iniciais, começaram por comunicar os seus imóveis apenas no Facebook. No entanto, decidiram fazê-lo de uma forma profissional. Precisavam de construir uma reputação. Decidiram então contratar fotógrafos para publicar as fotografias no Facebook e aceitaram exclusivamente propriedades que garantissem qualidade. Segundo Magda, ela e Miguel escolherem locais que fossem de encontro aos gostos de jovens urbanos, escolhendo locais que se encontravam na moda. Rapidamente conseguiram um fluxo estável de clientes, tanto pessoas interessadas em arrendar, como proprietários interessados em arrendar. “Tornou-se algo cool alugar casas através de nós”, conta a proprietária e antiga hospedeira da TAP.

A Home Lovers já expandiu para mais duas cidades portuguesas, Porto e Cascais, e estão a considerar a possível expansão para Madrid. Sobre isso, Magda Tilli explica, “Estou com algum receio dessa possibilidade, mas não nos vejo a fazer este tipo de negócio em mais locais aqui em Portugal.”

“Quero ser Empreendedor”

É fácil perceber o porquê do empreendedorismo estar tão em voga nos dias que correm em Portugal. Basta olhar para os, ainda elevados, números do desemprego. A situação é especialmente má para os jovens adultos, onde um em cada três jovens entre os 15 e os 24 anos ainda estão sem trabalho, de acordo com o Eurostat, o departamento de estatística da União Europeia.

Paulo Soares de Pinho, professor e coordenador do fundo de investimento da Nova School of Business and Economics, diz que uma das maiores mudanças que o desemprego trouxe ao país foi o desejo de muitos desempregados se quererem tornar empreendedores. No entanto, apesar de muitos jovens das áreas tecnológicas conceberem muitos produtos, nem todos são capazes de os tornar em negócios. “Estamos a passar por uma onda de empreendedorismo graças às aplicações móveis. Qualquer recém-licenciado que acaba de sair da escola de engenharia desenvolve uma aplicação e pensa que tem uma empresa”, conta o professor. “Mas muita da tecnologia projetada não tem qualquer orientação de mercado.”

Carlos Silva, cofundador do site de crowd funding, Seedrs, concorda com a afirmação de que em Portugal “estão a nascer muitas start-ups, simplesmente porque o empreendedorismo é agora uma moda.” Apesar disso, acrescenta, “existem cada vez mais start-ups de excelente qualidade.”

Com o apoio ao empreendedorismo, o governo português criou várias medidas, incluindo fundos de investimento como o Microinvest ou o Impulso Jovem. As incubadoras de empresas também se espalharam pelo país, como forma de dar aos novos negócios um escritório ou uma secretária, para ajudar no início da atividade, pelo menos nos primeiros meses. Magda e Miguel Tilli também recorreram a tais entidades, nomeadamente à Start-up Lisboa, durante os primeiros passos do seu negócio.

Alteração dos negócios

Anthony Douglas é outro empreendedor que usou como auxílio a Start-up Lisboa para o erguer o seu negócio. Anthony, de 33 anos, é fundador da Hole19, uma aplicação de Golf que fez o mapeamento de milhares de campos de golf espalhados pelo mundo. Esta App permite ao golfistas registar e guardar estatísticas sobre o seu desempenho.

Este jovem empreendedor, filho de mãe portuguesa e pai americano, conta, “Estivemos pela hora da morte algumas vezes, com a conta bancária a zeros. Em certos meses tive de abdicar do meu salário e pedir dinheiro a familiares.” Felizmente, desde então Anthony Douglas conseguiu virar a sua sorte ao tomar a decisão de tornar a Hole19 uma aplicação gratuita. O objetivo agora é obter rendimento, permitindo aos utilizadores reservarem os campos de golf através da App, obtendo uma taxa por cada reserva efetuada. Segundo Douglas, a Hole19 teve cerca 220 mil downloads nos primeiros noventa dias depois de se tornar gratuita. E, recentemente, obteve um investimento estrangeiro de 900 mil euros.

João Romão, de 25 anos, é outro jovem empreendedor português que conseguiu virar a sorte do seu negócio. A sua primeira ideia para uma start-up, que girava em torno do conceito da partilha de listas de presentes, ligadas a lojas online, rapidamente falhou. Inabalável, está agora a desenvolver um negócio chamado GetSocial, que se propõe a ajudar as empresas a promover o seu conteúdo em redes sociais, e a medir o seu impacto, tendo recentemente obtido um investimento de 630 mil euros. João diz que “A sua primeira tentativa foi uma boa lição. Ensinou-me a construir uma start-up. Estamos sempre a aprender.”

Fonte: BBC News